NOSSA HISTÓRIA
GELCO

MEMÓRIA DOS CAMINHOS DO GELCO*
Denize Elena Garcia da Silva


Colocar em pauta os caminhos do Grupo de Estudos de Linguagem do Centro-Oeste, situá-lo sócio-historicamente, sobretudo em termos de uma espécie de inclusão social no cenário acadêmico brasileiro, remete-nos ao campo de uma política de identidade. O termo inclusão, tão utilizado na atualidade, significa "ter direito a ter direitos", o que pressupõe a meu ver uma relação próxima ao conceito de identidade.

Assim esta apresentação resgatará um momento especial, qual seja, o surgimento de uma sociedade acadêmicocientífica no Centro-Oeste do Brasil. O Gelco nasceu diante do fato de professores e pesquisadores que vivemos nessas "paragens brasileiras", assumirmos, de modo consciente, uma identidade coerente com a imensidade de bens culturais, de variedades dialetais, com uma diversidade linguística (num olhar sobre as línguas indígenas) e, sobretudo, com a necessidade de sermos conhecidos pelos outros. Nas palavras do estudioso Calhoun (1994, p. 9-10):

Não temos conhecimento de um povo que não tenha nomes, idiomas ou culturas em que alguma forma de distinção entre o eu e o outro, nós e eles, não seja estabelecida... Sempre [segundo Calhoun], o autoconhecimento - invariavelmente uma construção, não importa o quanto possa parecer uma descoberta - nunca está totalmente dissociado da necessidade de ser conhecido, de modo específico, pelos outros.

No contexto dessas ideias nasceu a associação. Criado na Universidade de Brasília, em 11 de outubro de 2000, durante o I Encontro de Professores de Letras do Brasil Central, o Gelco passou a congregar profissionais e estudantes da grande área das Letras, envolvendo Literaturas, bem como Linguística Teórica, Linguística Aplicada e Ensino de Línguas.

Como entidade regional, o Gelco contou, de início, com uma rede de associados que se estendia desde os Estados de Mato Grosso do Sul e Mato Grosso, até Goiás e o Distrito Federal, incluindo o Estado de Tocantins desmembrado para o norte. Desde então vem ganhando adeptos de outras regiões brasileiras, graças ao contato com associações nacionais e até mesmo internacionais. Devo ressaltar que a necessidade de sermos conhecidos de modo específico, de marcarmos nossa identidade, encontrou eco e respaldo também nas agências de fomento.

A propósito, ao discutir a questão da identidade e significado na sociedade em rede, Manuel Castells (1999, p. 24), em seu livro "O poder da identidade", sugere que a construção social da identidade sempre ocorre em um contexto marcado por relações de poder. Nessa perspectiva, propõe o autor uma distinção entre três formas e origens de construção de identidades: a legitimadora, a de resistência e a de projeto. Enquanto a identidade legitimadora envolve instituições dominantes da sociedade visando à expansão e racionalização de sua dominação no que concerne aos atores sociais, a identidade de resistência surge como decorrência de condições desvalorizadas e/ou estigmatizadas pela lógica da dominação, o que implica o surgimento de trincheiras de resistência e sobrevivência de seus integrantes. Mas é no terceiro tipo de identidade que podemos contextualizar o escopo do Gelco, uma vez que a identidade de projeto, resultante da utilização de material cultural, permite a construção de uma nova identidade capaz de redefinir uma posição na sociedade e, em condições propícias, transformá-la.

O I Gelco, realizado na Universidade Federal de Mato Grosso do Sul, em Campo Grande, no mês de outubro de 2001, representou oficialmente a voz do Centro-Oeste no espaço acadêmico brasileiro, quando recebemos então apoio de instituições de ensino superior, bem como duas aprovações do projeto com apoio financeiro do CNPq e da Capes. Nesse primeiro evento, foram discutidos os avanços, bem como os desafios do ensino, da pesquisa e dos cursos de pós-graduação na região Centro-Oeste voltados para os estudos da linguagem.

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Trecho do artigo "Memória dos caminhos do Gelco", publicada na revista Polifonia da UFMT.


SILVA, Denize Elena Garcia da Silva. Memória dos caminhos do Gelco. In.: ASSIS-PETERSON, Ana Antônia de; COX, Maria Inês Pagliarini; PETRONI, Maria Rosa. Polifonia. Periódico do Programa de Pós-Graduação em Estudos de Linguagem - Mestrado [do] Instituto de Linguagens, Universidade Federal de Mato Grosso - Ano 17. nº 17. (2009). Cuiabá: Editora Universitária, V. I; 22,5 cm 257p., disponível em: <http://www.ufmt.br/meel/arquivos/5005b89de977fcf486eece2e217ad854.pdf> . Acesso em: 21 mar 2017.